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Special Things by Me

Um blog sobre ser mãe, mulher e esposa. Um blog sobre os desafios da maternidade, sobre alimentação especial, um blog sobre tudo e sobre nada.

Special Things by Me

Um blog sobre ser mãe, mulher e esposa. Um blog sobre os desafios da maternidade, sobre alimentação especial, um blog sobre tudo e sobre nada.

O problema não se fica por aqui

A dona Pavlova fala da vergonha das notas inflacionadas no secundário. Eu digo que infelizmente não fica por ai. Lembro-me na faculdade de várias situações de extrema vergonha e descriminação, mas o que se pode fazer se de facto esta é a realidade da nossa sociedade?! Ora vamos as situações que me lembro assim de cor.

 

1 - Eu termino o ensino superior com média de 14,5 valores, precisava de 16 valores para me ser dada uma bolsa de doutoramento. Termino a tese com 18 valores bem suados (já explico)... eu não aceitei fazer a tese de licenciatura num dos estágios oferecidos pela faculdade, fui eu a procura de quem me aceita-se tornando o desafio maior. Então fui aceite na faculdade de medicina da Nova num estágio de Imunologia onde tinha média de 18 valores à cadeira. A minha orientadora antes de eu iniciar o meu estágio por lá, fica com um esgotamento e tive de ir ao Técnico a procura de um novo projecto... consegui e fui aceite.

Todos adoraram o meu trabalho, a chefe do departamento era nada mais nem menos do que uma das primeiras cientistas femininas de Portugal, a amiga dela era a "coordenadora" do meu curso outra pioneira nas ciências em Portugal.

No final chamam-me e pedem para ficar comigo inicialmente sem me pagar, porque teriam de conseguir mais tarde uma bolsa para licenciada. Eu digo que sem dinheiro não conseguia me sustentar em Lisboa.

A professora simplesmente me confessa ali, sabe tenho um paspalhão a tirar um doutoramento que não sabe nada de nada, mas tem média de 18 valores tirado na Faculdade de Ciências de Lisboa... e agora descobri que eles facilitam demasiado a vida aos alunos deles para no final terem mais alunos a seguir para bolsas de doutoramento. E então comecei também a facilitar a vida aos meus alunos aqui, como você viu se eles apresentarem o trabalho e mesmo que se saiam mal tem logo um 14, se fizerem tudo o que foi pedido tem um 16. E eu sorrio e digo na Nova não funciona assim são muito exigentes. E ela diz pois eu já disse à sua coordenadora de curso que ela tinha de se adaptar senão a Nova não ia ter doutoramentos em ciências, ela não aceita facilitar porque nunca nos foi facilitada a vida sendo nós mulheres num mundo de homens. Mas infelizmente as bolsas de investigação cientifica em Portugal não vem o mérito da pessoa só a média da licenciatura e mais nada. E infelizmente uma bolsa de doutoramento dá mais dinheiro ao instituto do que uma bolsa de licenciatura. 

 

2 -  A minha tese sai do Técnico com uma avaliação de 20 valores, porque eu fiz tudo o que me foi exigido, não obtivemos resultados esperados porque na ciência as coisas funcionam assim e demoram tempo até conseguirmos acertar o caminho e assim obter os resultados esperados, em 3 meses de investigação muito dificilmente se chega lá. No dia da minha apresentação oral da tese na faculdade Nova, tiveram de dizer aos jurados para parar com as perguntas visto já terem ultrapassado o tempo de perguntas em 20 minutos. No final dizem que vão me dar 18 valores em consideração a orientadora de estágio ser uma das pioneiras na ciência e ela ter dito que eu valia 20 valores. Porque para eles 20 valores era obter resultados positivos. 

A seguir é apresentação da tese de uma das raparigas que todos os professores adoravam, sabia a teoria toda, mas na prática só faziam asneiras... mas era uma das golden girls do curso... gagueja apresentação toda, quando chega a parte da discussão dos resultados que também não eram os esperados, os jurados fazem cada um 1 pergunta, a rapariga começa a tremer e a chorar e não responde... tem a mesma nota que eu 18 valores, a rapariga em questão foi para um estágio oferecido pela Nova, sendo os orientadores dela nada mais nem menos que professores que ela teve durante o curso. 

A minha co-orientadora do Técnico sai de lá super revoltada, e foi falar com a orientadora do Técnico dizendo que foram muito injustos comigo... a orientadora escreveu uma carta revoltada com a decisão da Nova e que eles deviam de rever a minha situação. Responderam que não podiam me dar 19 ou 20 valores porque havia quem tivesse tido resultados positivos e esses é que mereciam um 19 ou 20. 

Para que fiquem sabendo nas ciências a tese depende muito do que foi investigado para trás pelo nosso orientador, eu iniciei um projecto do zero... os meus colegas que tiveram 20 valores estavam numa fase final do projecto quando entraram para o mesmo... logo as dificuldades já tinham sido ultrapassadas, bastava afinar a experiência e ter resultados dignos de uma publicação numa revista cientifica. 

 

Só para referir na altura que defendi a tese a minha coordenadora de curso, amiga da minha orientadora no Técnico... (as tais pioneiras) estava muito doente e foi afastada da coordenação, quem me deu a nota da Tese foi os jurados da nova e a coordenadora do curso ( a que substituía a antiga coordenadora). 

A minha média é baixa porque nos dois primeiros anos do curso são cadeiras rígidas não escolhidas por nós, basicamente eram químicas e físicas e matemáticas, só uma ou outra de biologia. 

Nos dois últimos anos a minha média subiu imenso porque eram cadeiras que eu me identificava mais e o último ano é escolhido por nós. 

 

E por estas injustiças todas me revoltei contra a investigação em Portugal, porque não olha as pessoas mas só a números e cunhas e influencias de notas para conseguir dar bolsas de doutoramento a quem eles querem. E assim não segui a área que me licenciei porque em todas as entrevistas me diziam que eu tinha uma média baixa 14,5 valores era pouco, se tivesse um 15, 4 ou 15, 3 ainda conseguiram me aceitar. 

 

Os jovens de hoje

Numa conversa habitual de desabafo sou abordada com o "a minha filha que vai fazer 18 anos está numa idade muito complicada, eu não sei o que fazer porque quando eu tinha 18 anos era fácil ter trabalho, o que respondo a uma jovem que não quer tirar o 12 ano porque não vale a pena que não há emprego?" 

Eu pensei nisto e reflecti e aconselhei como mãe e como quem ainda a poucos anos (11 anos) teve essa idade. Sei que quando foi para escolher a área de ensino, se letras, economia ou ciências me senti angustiada, só estava eu no 9 ano e já tinha uma responsabilidade tão grande... resolvi pelas notas que tinha, era boa a ciências. 

Quando estava a terminar o 12º ano tinha de escolher o curso, e o que eu gostava mesmo era do ensino, mas o ensino estava mal muito mal e depois de muita angustia minha e pressão de escolher uma profissão que desse emprego fui para biologia celular e molecular, não para biologia marinha que isso não dá dinheiro. Conclusão não fui para investigação porque não há bolsas e trabalha-se muito a borla e tive muita sorte e graças ao meu marido e a mulher de um amigo dele que a vida me abriu a porta a este emprego (foi por mérito sim, a única cunha foi a pessoa levar o curriculum a uma amiga e essa amiga dar-me emprego a recibos verdes, onde conheci indirectamente as pessoas para quem trabalho agora e me contrataram pelo bom trabalho efectuado). Mas trabalhei quase um ano em call-centers que eram os únicos locais que aceitavam licenciados. Trabalhar num shopping ou supermercado é ter as portas fechadas porque somos licenciados e se mentimos na formação não nos dão emprego porque estivemos 5 anos sem fazer nada. 

 

Sim é uma pressão muito grande para os jovens de 18 anos, mas o meu conselho é que os pais não deixam os filhos baixarem armas só porque o futuro não aparenta ser risonho, ninguém sabe o que o futuro nos trará... o que não podemos ser é derrotistas... sim acabem pelo menos o 12 ano... e sim os pais devem incentivar os filhos a que trabalhem quando acabem o 12 ano... ou se os filhos quiserem estudar/ trabalhar ao mesmo tempo que imponham regras. A meu entender o pior que podem fazer a um jovem de 18 anos é dizer ok vais trabalhar, ficas em casa dos pais, a mãe trata da comida e da roupa e faz tudo pelo filho(a) e o dinheiro que eles ganham é para as despesas deles... E eu pergunto que despesas, ah para saírem com os amigos e comprarem roupa e afins. Então mas pêra ganham o ordenado mínimo, muitas vez o mesmo que os pais, mas depois não ajudam os pais? Ah não porque o dinheiro é deles e não é justo fazerem isso, os meus pais não me fizeram isso e eu tb não faço isso aos meus! Mas espera no seu tempo os seus pais deixavam andar a vadiar todos os dias ou fins-de-semana pós trabalho? Não, mas por isso é que nós queríamos sair de casa porque não tínhamos liberdade. 

E assim chegamos a minha conclusão, os pais hoje em dia querem dar o melhor aos seus filhos, não percebendo que não os estão a empurrar para fora do ninho mas sim a prender ao ninho. Se eu for um jovem de 18 anos, começar ali a trabalhar por exemplo numa loja de roupa, sim temos um chefe e pode ser chato, trabalhar fins de semana e ter folgas rotativas... mas depois chego a casa e tenho roupa lavada e comida na mesa sem ter de contribuir uma palha, seja em dinheiro ou trabalho manual e ainda tiro um rendimento de 500 euros ao fim do mês só para mim... oh maravilha para que sair de casa e ser independente?!! Ou para que prosseguir os meus estudos ou lutar por uma vida melhor se tenho uma vida boa em casa dos meus pais?! 

E é assim que as vezes em questões de segundos ou minutos os pais destroem uma educação de toda uma vida, pois pensam que é injusto que os filhos contribuam para a casa se isso é da responsabilidade dos pais. 

Alto e para o baile, é da responsabilidade dos pais dar educação aos filhos, educação essa que é obrigatória o 12º ano, se o filho quer se licenciar e os pais tiverem capacidade para ajudar melhor. Senão o poderem ajudar epá não chorem baba e ranho porque no estrangeiro é prática comum, estudar e trabalhar. 

 

E fica aqui este texto para quando eu tiver com uma filha com quase 18 anos e me sentir tentada a cair na tentação de lhe dar tudo de mão beijada. Nem que seja ela pagar só a sua alimentação por exemplo, ou dar 100€ por exemplo que vão para uma conta dela e eu depois dar-lhe quando ela sair de casa. Mas algo que lhes ensine um pouco do que é a responsabilidade financeira... que isto não é só trabalhar e gastar dinheiro, ser adulto exige muita responsabilidade financeira e muito trabalho domestico, que a maioria dos jovens em Portugal nem faz ideia o que significa ser adulto.