Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Special Things by Me

Um blog sobre ser mãe, mulher e esposa. Um blog sobre os desafios da maternidade, sobre alimentação especial, um blog sobre tudo e sobre nada.

Special Things by Me

Um blog sobre ser mãe, mulher e esposa. Um blog sobre os desafios da maternidade, sobre alimentação especial, um blog sobre tudo e sobre nada.

RTP dá tiro no pé e Joana Vasconcelos suicida-se em público

Da polémica do João Soares, é que nem vale a pena comentar, acho que já cometeu suicido social a muito tempo. 

A RTP que estava a começar a entrar no meu canal de eleição porque esta a ter uma programação interessante em ver, comparativamente com a ficção nacional das outras emissoras. E vai na volta enterra-se completamente... com a tal campanha de #esefosseu que para quem não sabe, serve para as pessoas se colocarem na pele de um refugiado e escolherem coisas para levar na mochila. 

Ora a Dona Vasconcelos decide levar, o ipad, o iphone (ela diz mesmo isso, não o telemóvel ou tablet, que é para mostrar o dinheiro) o meu caderno, os meus lápis, lãs e uma agulha para qualquer eventualidade (vai espetar aquilo num olho de um terrorista, só pode), os meus óculos de sol e as minhas jóias portuguesas....

 

Querida Dona Vasconcelos chumbou redondamente na prova..... a ideia era por se na pele dos refugiados, fugir pela vida, não fazer a mochila para ir a esplanada ver as vistas e passar o tempo. 

 

Sim houve refugiados que levaram consigo o telemóvel e o carregador para quando tivessem num local seguro o voltarem a ligar. Por isso nem crítico isso, crítico sim a falta de alguns artigos onde demonstrasse que estava a levar o assunto a sério e não de uma forma a mostrar aquilo que tem. 

 

Se fosse comigo (espero que nunca seja), levaria na mochila da minha filha, o seu óó, um história pequena (para ler ao dormir e ela esquecer o mundo), a sua minie, e a sua boneca.... porque uma criança merece ser criança. 

Na minha levaria, uma muda de roupa minha, da minha filha, uma manta para a embrulhar a ela, e sabão, escovas de dentes e pasta de dentes. Leva-a a carteira com os nossos documentos, a certidão de casamento (para provar que era casada) e levava o primeiro álbum de fotos dela (não é pesado). 

Na do meu marido, levaria roupa dele, mais uma manta, e alguma comida enlatada. 

 

Infelizmente neste cenário não sei bem como poderia levar os meus meninos :S, porque não são pequeninos, o N é arrisco e morde e assanha-se, a B é medricas mas não gosta de colo. 

 

É só isto....

É só isto que Portugal tem de se lembrar, que muitos são filhos de retornados ou até mesmo de refugiados. 

Eu sou refugiada, talvez, se pensarmos que a minha família também "fugiu" da África do Sul, que o meu pai teve medo pelas suas filhas que tinha lá, eu não me lembro da minha terra natal, mas ainda hoje sinto a mágoa que a minha mãe tem no coração por ter deixado a sua vida de lá. A única vida que ela conheceu. 

Ela foi com 5 anos para Moçambique e pelo meio não percebo bem como foi parar a África do Sul, o meu Pai com 18 anos acho eu também lá foi parar, também não me lembro bem dos detalhes. 

Construíram uma vida lá, vivam bem pelos vídeos e fotos que vi, porque me lembrar não lembro de nada. Tínhamos uma moradia e tínhamos piscina, e como eu gostava de ter uma piscina na minha casa de Portugal. 

Eu não me lembro, mas a minha mãe e irmã lembram-se de estar no aeroporto a chorar agarradas a uma e a outra porque iam deixar tudo o que construíram e ir viver em casa dos pais da minha mãe. 

Fugiram com medo do apartheid, conseguiram trazes umas poupanças e o recheio da casa. 

Mas vieram para um país diferente que não os soube receber. 

Minha mãe a falar pouco português, a ter de colocar as filhas numa pré-escola e a filha mais velha negada a entrada no 2 ano de escolaridade porque sabia pouco português, e assim a minha irmã mais velha foi para uma turma de crianças mais novas e olhada de lado. 

A minha irmã do meio, tenho relatos na memória de ela vir a chorar todos os dias da pré-escola, porque nenhum menino falava a língua dela e que ela queria a casa antiga. 

Tenho relatos na minha memória da minha mãe ir a loja comprar comida e da minha irmã mais velha nos dizer para não pedirmos nada a mãe porque ela não tinha dinheiro como tinha antes. 

Eu própria fui olhada de lado várias vezes porque a minha naturalidade não é portuguesa. Lembro tantas vezes de me perguntarem porque não era negra se era Africana. Lembro do meu namorado dizer a família dele que namorava comigo que era Sul Africana e sair o padrinho dele com uma boca insinuado que eu era negra (até podia ser sem problemas, mas o tom com quem diz ou pergunta é sempre de racismo).

Os meus pais não vieram a procura de uma vida melhor, de dinheiro, porque esse eles tinham lá.... eles vieram com medo pelo futuro dos seus filhos... tal e igual os retornados e tal igual estes refugiados. Se pensam que é fácil emigrar desenganem-se, eu sei do que falo, vi a minha irmã mais velha ir a procura de uma vida melhor, lembro-me de ver a minha mãe a chorar agarrada a ela e eu a chorar no caminho todo de volta.... sei bem o que emigrar custa, sentir que a minha irmã mais velha perde sempre um pouco mais de nós sempre que vai... que não vê os sobrinhos crescer como queria. Ela emigrou por uma vida melhor... sei que custa... mas sei que custa mais o fugir não por uma vida melhor mas porque o que nos espera se ficássemos era a morte ou a insegurança. E isso ninguém quer para o seus filhos. 

É por isto que não entendo quem fugiu das Áfricas ou filhos de pais que fugiram das Áfricas podem estar contra a ajuda ao refugiados... só porque fugiram para o país de origem?! 

Quantos de vós não olham para as fotos do holocausto e pensam que alguém devia de ter feito alguma coisa para evitar aquilo. 

Sim temos fome, pobreza, sem abrigos e tudo o mais no nosso país, mas não teremos compaixão por quem teve de deixar tudo... 

Fechem os olhos por um momento, pensem na vossa casa, no vosso sofá, na comida que tem, nas memórias que tem guardadas, na vossa roupa... na vossa mobília ganhada pelo vosso trabalho honesto... pensem nos vossos filhos e animais de estimação.... agora ouçam barulhos estridentes, será fogo de artificio, não a terra treme... morte de familiares, perseguição, ordem de ficar em casa, as escolas fecham, o dinheiro já não compra nada porque não há nada para comprar... sair de casa para ir buscar bens de alguma necessidade pode significar a última viagem que fazes... e depois vês ali a tua saída o dinheiro que tens paga-te o bilhete para ti e para os teus filhos num bote... sem condições e sem água... tu arriscas, soltas os animais de estimação na rua e choras porque os abandonas, tens de pensar em ti e nos teus filhos, vais num bote a atravessar o mar, agarrado aos teus filhos que choram porque os brinquedos ficaram para trás... porque tem medo, todos gritam, o bote vai cheio demais... e quando finalmente chegas descobres que ninguém te quer... que terás de viver com mais pessoas, partilhar quartos com estranhos.... e ficar dias e dias a receber esmola porque não podes sair para ir trabalhar, nem os teus filhos podem ir a escola... e passas os dias a espera que a tua vida volte a fazer sentido.

E agora sentes compaixão....